• Daniela Pereira

O dublado, o legendado e as referências nacionais: quando as adaptações passam do ponto?


No texto anterior, falei um pouco sobre algumas adaptações de títulos de filmes, séries e livros pelo ponto de vista da tradução. Neste texto, irei comentar algumas adaptações polêmicas de alguns seriados e filmes que causaram confusão.


Relembrando: a adaptação é utilizada quando não há um equivalente de um termo na língua de origem e se usa uma outra frase para tentar explicar aquele termo tecnicamente "intraduzível" na língua de tradução.



1. Doctor Who e quando Ed Sheeran virou Silvio Santos

Doctor Who é minha série preferida (os "mais chegados" sabem muito bem disso). É uma pena que os direitos sempre estejam sendo passados de uma plataforma de streaming para a outra (antes tinha na Netflix, e então havia uma época em que a série passava na TV Cultura, depois só no canal pago Syfy...), então Doctor Who nunca teve um lugar fixo.


No ano de 2018, a 11ª temporada estreou e os direitos estavam sob responsabilidade da Crackle no Brasil. Todo mundo estava feliz porque a disponibilidade dos episódios semanais era imediata, mas houve a tal polêmica em que Ed Sheeran virou Silvio Santos no quarto episódio da temporada.


Na cena, a Doutora tenta entender o que aconteceu no hotel e se depara com o dono, mas ela não sabe quem ele é e este parece se ofender. Ela pergunta se ele é Ed Sheeran, mas ele diz que não. O humor se dá porque a Doutora viaja por todo o tempo-espaço e às vezes se confunde com as referências culturais da época, mas como estão na Inglaterra, no presente, ela pergunta, inocentemente, se o dono do hotel era o cantor, por este ser alguém conhecido mundialmente. Observe o diálogo:

Vamos discutir a discrepância da adaptação nessa dublagem. Primeiramente, Ed Sheeran é um cantor conhecido. Suas músicas são ouvidas em todos os lugares. Não teria por que adaptar o nome dele se ele é extremamente conhecido. Segundo porque Silvio Santos é uma figura da televisão brasileira. Ele é muito conhecido por nós aqui? Sim, mas ele não é um cantor, e sim um apresentador. Terceiro que se fosse para adaptar o nome de um cantor jovem que não fosse conhecido por nós aqui no Brasil, que adaptassem com o nome de um cantor jovem conhecido, como Luan Santana, Gusttavo Lima, por exemplo. Veredicto: Precisava adaptar? Não. Ficou engraçado? Sim.



2. Brooklyn Nine-Nine e Boyle “coxinha”

No quarto episódio da quinta temporada de Brooklyn Nine-Nine, o personagem Boyle criou o termo “tramp” que pode remeter ao nome do presidente dos Estados Unidos, “Trump”. Na língua inglesa, essa palavra se refere, pejorativamente, a alguém que mora na rua, um “vagabundo”, que não foi o caso do termo utilizado pelo personagem. Ele queria dizer que era um seguidor do Trump, no caso, um “tramp”, e os outros personagens não gostaram pois não compactuam com sua visão política.


Devido ao cenário político atual do Brasil, aqueles que compactuam com as ideias do atual presidente são chamados pejorativamente de “minions”, palavra que deriva do inglês, que significa “um seguidor ou subalterno de uma pessoa poderosa, tratado como servo ou pessoa não importante”.


No vídeo compilado, vemos que foi feita a comparação do áudio original com a legenda fansub (feita por fãs e disponibilizada gratuitamente na internet) e a dublagem feita pela TNT. “Tramp” foi adaptado como “Molengas” pela legenda fansub, enquanto a empresa responsável pela dublagem adaptou como “Minion”.

Acusaram os responsáveis pela dublagem por tentarem ser “politizados”, mas eu não condeno essa adaptação porque a dublagem apenas manteve a característica política do personagem.



3. Gênios do Crime, Chacrinha, Paquitas e Xuxa

Em 2016, o filme Gênios do Crime (em inglês, Masterminds) estreou nos cinemas. Eu assisti ao filme dublado no cinema e achei as adaptações geniais. Vamos a alguns exemplos.

Logo na primeira cena, os personagens David e Kelly estão num clube de tiro. Ele põe a arma dentro da calça, mas dá um tiro em si mesmo sem querer. O diálogo da cena é o seguinte:

Como é um filme de comédia, a expressão literal “você quase fez um buraco novo em si mesmo” ficaria MUITO estranha. Na linguagem popular, temos várias gírias para “aquele local”, logo “forévis” ficou muito engraçado, além do uso da expressão “cofrinho”.


Há uma cena em que David precisa se disfarçar e fugir do país (spoiler?). Kelly o ajuda a se disfarçar para não ser reconhecido no aeroporto.

Adaptaram na dublagem para “paquita” porque David está usando uma peruca loira. Mantiveram “gato” porque a lente de contato lembra um pouco o olho de um gato, além de possibilitar o trocadilho “gatas” em referência às paquitas serem bonitas. Vamos combinar que se mantivessem a ideia de colocar Jesus no meio de uma referência causaria um problema aqui no Brasil, não? Eu, por exemplo, usaria “eu pareço uma mistura de Hannah Montana com um gato” para fazer referência à peruca loira.


Um outro exemplo que eu achei muito interessante na dublagem desse filme é de uma cena na metade do filme. David agora está foragido no México e continua se disfarçando. Ele liga para Kelly e o seguinte diálogo ocorre:

Por que adaptaram para “Chacrinha”? Possivelmente porque a referência ao apresentador Gene Shalit passaria batida pelo público brasileiro (eu, por exemplo, já ouvi falar desse programa, mas não sabia quem era o apresentador). E aqui a adaptação da dublagem foi bem interessante porque Chacrinha foi um apresentador brasileiro muito conhecido, até para a geração mais jovem. Logo, adaptaram o nome de um apresentador americano conhecido lá fora para o nome de um apresentador brasileiro conhecido aqui.


O último exemplo que eu quero comentar sobre esse filme é de uma outra parte dessa mesma cena. Aqui, enquanto fala no telefone, David encontra a carteira de identidade de Steven, outro personagem, e a observa. Ocorre o seguinte diálogo:

Já que o personagem do Steve(n) é feito pelo Owen Wilson e o ator possui cabelo loiro, resolveram adaptar como “filhinho da Xuxa”. Assim como no exemplo anterior, o público não saberia quem é Ric Flair (ex-lutador americano), cujo cabelo também é loiro. Mesmo a apresentadora Xuxa não tendo um filho que se remeta ao personagem Steve(n), ela pode ser considerada uma referência de pessoa famosa e loira, causando tom humorístico da cena dublada.


Neste texto, comentei sobre exemplos de adaptações muito criticados e outros que poderiam ser aceitos sem problema. Devemos sempre ter em mente que, apesar de “errarem a mão” em algumas adaptações, devemos torcer para que as referências sejam bem adaptadas e que o espectador da série ou do filme que desconhece determinada referência consiga compreender a cena em questão e, se for o caso, rir da adaptação feita, como se a cena original estivesse mesmo se referindo a algo conhecido por esse espectador. Além disso, preciso mencionar que a dublagem é um direito. Logo, se você consume materiais traduzidos e dublados, é seu direito ter uma tradução ou dublagem de boa qualidade, mas lembre-se que adaptações são feitas exclusivamente para que o público da língua de tradução (que possivelmente não compreende a língua estrangeira do filme ou seriado) compreenda perfeitamente o material dublado. Então, se você não gosta de uma adaptação feita porque conhece a referência do original, mas que, por exemplo, a sua avó não conhece, aceite que essa adaptação foi pensada para o público geral brasileiro, e não para nós que estamos o dia inteiro na internet e sempre aumentando as nossas referências estrangeiras.

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