• Daniela Pereira

Qual é a prioridade: se expressar corretamente ou apenas se comunicar?



Essa semana, surgiu uma discussão em um dos grupos de Tradução no Facebook: uma pessoa disse que não aguenta mais ver erros de crase e outros erros "bobos", e que a solução seria os contratantes de serviço (para quem esses tradutores oferecem seu trabalho) estudarem a própria língua. Graças a essa discussão que virou motivo de apoio e piada, temos o texto de hoje!


Primeiro, vamos falar um pouco sobre gramática normativa e processo de comunicação.


1. Gramática normativa ("Devemos aprender e respeitar a língua")


Se pensarmos na língua inglesa: todo mundo que não tem o verbo to be na ponta da língua, revira os olhos sempre que se depara com o famigerado: "DE NOVO?! Ai, mas eu já vi isso mil vezes. Sei usar! Não preciso estudar". O professor ou a professora pede, por exemplo, que uma pessoa diga a sua idade. Ela responde: "I have __ years old.". Cometida a gafe do "eu já sei! Não preciso rever isso, não", essa pessoa é "corrigida" (de acordo com a abordagem do professor): se explica que o verbo to be é utilizado para dar a informação de idade também, não apenas o já conhecido "ser" ou "estar".


Se pensarmos na própria pergunta a essa informação de idade: "How old are you?", temos "are", o verbo to be. Assim, devemos nos atentar a qual verbo aparece na pergunta para adequarmos a nossa resposta. Dificilmente ouvimos a pergunta: "How many years do you have"? ("Quantos anos você tem?" – tradução literal a partir do Português). Por quê? "Have" é um verbo que indica algo que a pessoa tem, como posse, por exemplo. Poderíamos reformular a pergunta "errada" para sabermos sobre alguma quantidade: "How many books do you have?" ("Quantos livros você tem?"). Aqui, sim, estamos falando de "posse". A pessoa poderia responder tranquilamente com o verbo have, já que apareceu na pergunta: "I have __ books".


Eu já trabalhei em uma escola de idiomas que não descartava o ensino da gramática; outra, demonizava, abominava, quase PROIBIA. Eu, pessoalmente, pela minha experiência tanto como aluna e, posteriormente, como professora, discordo de alguns métodos que "escondem" a explicação gramatical. Antes de responder o porquê, vou explicar os dois lados.


1.1 "Explica a gramática, sim!"


Cada escola de idiomas tem a sua metodologia: umas focam mais em conversação, outras focam em leitura, outras focam em gramática... Ter um foco muito específico, que prioriza somente uma das quatro habilidades linguísticas (fala, escrita, audição e leitura) e coloca as outras em segundo plano, é prejudicial tanto para o professor quanto para o aluno.


Ao estudarmos teorias ou abordagens específicas para o ensino de uma língua — no meu caso, o ensino de língua estrangeira —, há muitos materiais relacionados a docência que afirmam que o professor deve "adaptar" suas aulas às necessidades dos alunos. Aqui também entra a questão da inteligência múltipla. Cada pessoa aprende de uma maneira diferente. Vou usar a mim mesma como exemplo: quando eu era criança, adorava aprender e treinar inglês por meio de brincadeiras, colagens, desafios, músicas... Quanto mais "dinâmica" a aula, melhor. Isso me ajudou a desenvolver um jeito de aprender: eu estudo e preciso praticar logo em seguida para fixar bem aquele conteúdo. Se eu "enrolasse" para fazer a parte prática, era mais provável que eu tivesse dificuldade em relembrar aquele conteúdo. Agora, adulta, percebo que é imprescindível fazer anotações para eu não me esquecer de algo; fazer meus próprios resumos, esquematizações e depois responder um exercício é o que funciona para mim. Eu soube adaptar a minha necessidade de aprendizado, que funciona para mim, mas pode não funcionar para outras pessoas.


Em sala de aula, a história é outra: já dei aula para adolescentes e adultos com os mais diversos gostos e as mais diferentes necessidades. Alguns adoravam as aulas dinâmicas; outros, quanto mais exercícios escritos, melhor. Eu tentava agradar gregos e troianos: em uma aula, eu propunha uma brincadeira depois que eu explicava a gramática para que toda a sala interagisse, se divertisse e praticasse o conteúdo. Em outra, eu passava uma lista de exercícios para ser feita em duplas ou trios, para que eles se ajudassem (trabalho em grupo) e tirassem suas próprias dúvidas. E assim por diante. Sempre tentava trazer algo diferente para fazer com que eles não ficassem "moldados" a uma só abordagem (só exercício escrito, só uma brincadeira em grupo, só atividade individual...).


O importante, para mim, é que os alunos entendam para que vão usar aquele conteúdo, e isso envolve a gramática, o vocabulário, a pronúncia... É um apanhado de tudo. E, na minha opinião, é isso o que gera grande frustração por parte de alunos que estuda(ra)m em determinada escola e se frustra(va)m por não entender a matéria: suas necessidades não são atendidas. E não é culpa do professor que não soube entender como aquele aluno aprende e não adaptou a sua aula. Faltou o "aval" da escola de idiomas. Algumas permitem que os professores adaptem o conteúdo da maneira que quiserem, mas fazem um "cronograma": aquele conteúdo precisa ser ensinado em determinada aula, mas a maneira como se ensina é com o professor. Isso, para mim, é o melhor "método". Quanto mais criativo e paciente o professor for em questão de estudar abordagens, criar atividades diferentes, ampliando a sua própria maneiras de ensinar, mais dinâmica e diferente a aula dele vai ser. Além disso, os alunos vão perceber que aquele professor sempre tenta trazer algo novo para a turma e não fica na "mesmice". Isso ajuda muito na motivação, tanto na do professor quanto na dos alunos.


1.2 "Seus alunos precisam entender a gramática sozinhos"


Dentre os mais diversos argumentos que "abominam" a necessidade da explicação gramatical, um deles foi: "algumas pessoas não sabem a diferença entre um adjetivo e um advérbio... Imagina tentar explicar isso no Inglês". Quando ouvi isso, pensei em duas coisas: só porque o nosso ensino (público) deixa a desejar, não significa que "Português é uma coisa impossível de se aprender", "não vai entrar na cabeça", "nunca vou parar para analisar se a oração do meu período é subordinada adjetiva restritiva"; e só porque o aluno não entende algo que existe na língua dele, não significa que ele não vai entender aquilo em uma outra língua — pode ser até que ele entenda algo na língua dele por influência da língua estrangeira, como, por exemplo, eu finalmente ter entendido o uso de objeto direto e indireto no Espanhol, algo que era muito muito confuso para mim no Português. Viu, só? E isso porque ambas as línguas são parecidas, mas não iguais, e o conceito de objeto direto e indireto existe em muitas outras línguas.


Voltando para os exemplos sobre a minha experiência como professora de Inglês, em uma escola onde trabalhei, uma pontuação era mantida entre as professoras. De tempos em tempos, assistiam às aulas para ver se o método estava sendo mantido. Quem recebia uma das menores pontuações? Eu! Isso indicava que a minha aula era ruim porque "eu explicava demais"? Não. Só significa que eu não aceitava o método imposto porque ele pode até funcionar, mas, na minha opinião, dá mais margem para dúvida se o aluno não entender para que vai utilizar aquele conteúdo.


Não tiro o mérito de quem evita "explicar demais", mas eu sou uma pessoa que demanda explicações (sou o Zequinha do Castelo Rá-Tim-Bum. Estou sempre querendo saber o porquê das coisas), e isso se reflete nas minhas aulas (agora particulares). Claro que muitos são contra porque, dependendo do material utilizado, a pessoa aprende a gramática, fica "presa a ela", mas não sabe usá-la na prática porque não houve um contexto que a envolvesse, que ajudasse o aluno a lembrar em que situação viria a ser necessária. Mas isso não significa que não deve ser aprendida porque, como eu disse, pode gerar dúvidas e frustração quando mal apresentada, mal abordada ou mal explicada.


1.3 E aí? Explicar ou não explicar?


Num outro grupo de Facebook (só de professores de Inglês), há uns meses, abriram uma discussão a respeito da gramática normativa. Atenção ao seguinte comentário:


"Uma coisa é ensinar regras gramaticais e outra é ensinar gramática contextualizada. A gramática é essencial no ensino de um idioma, mas há um formato mais natural e prazeroso de aprendê-la sem ficar sofrendo com as regras. É simples: Quando você conversa com alguém na sua língua-mãe, fica pensando se vai falar um sujeito oculto, uma voz passiva ou simplesmente fala naturalmente?"

Concordo em partes. Na minha opinião, gramática com contexto é bem menos "chocante" do que chegar e dizer: "turma, hoje vamos aprender o verbo to be" ("Ah, não!"), sem mostrar as situações nas quais podemos utilizá-lo. Por exemplo, podemos usar o temido to be para falarmos de sentimentos ("I am happy!" — "Estou/Me sinto feliz!"), personalidade ("They are nice people." — "Eles são pessoas legais") e localização ("She's upstairs" — "Ela está lá em cima."). Nessas duas situações, dá pra ensinar muito vocabulário, fazer role-play ("encenações", um "teatrinho" em turma para pratica o conteúdo). Tudo é uma questão de abordagem e paciência.


Mesmo nós, professores de inglês, revisores, tradutores etc., damos uma "escorregada" às vezes. É impossível falar tudo corretamente todo o tempo. Claro, fazemos o mínimo para não errar, mas a dicção pode falhar, podermos nos esquecer de alguma palavra (o famoso "deu um branco")... Acontece. E tudo bem.


E sim, não vamos ficar nos atentando ao tipo de voz (ativa ou passiva), ao tempo verbal quando estivermos falando, por exemplo, mas é para isso que serve o estudo da língua: para praticarmos e essas regras se tornarem "naturais" quando precisarmos nos comunicar.


2. Comunicação ("O importante é o entendimento")


"Ô, teacher... Mas se eu falar have e completar com a idade certa e years old no final da frase, vão me entender?" "Vai..." "Então pra que eu vou falar 'certo', usando o verbo to be?"


Se eu ganhasse dez reais para cada vez que eu ouvisse essa pergunta...


Comunicação é importante? Claro. Há textos e mais textos na internet sobre o processo de comunicação, com esquemas de como se dá a comunicação entre emissor e receptor de uma mensagem. Entender o que o outro diz e ser entendido é fundamental? Sem dúvidas. Então por que aprender a gramática normativa se ela não é tão importante na comunicação?


Se não nos expressarmos de forma clara e direta, o chamado "ruído na comunicação" pode acontecer: nós, os emissores, antes de transmitirmos a mensagem, não a adequamos para o nosso receptor. Assim, podemos não ser compreendidos e a comunicação não terá êxito. Para isso, utilizamos a língua a nosso favor.


Quando crianças, já fomos motivo de "piada" para algum adulto. "Olha, que engraçadinho ela falando 'quelo' em vez de 'quero'!". Mas e quando já somos "crescidos" e somos chamados de "burros" quando a dicção falha? E se não estamos acostumados a pronunciar uma palavra (por exemplo, alguém falando "pubrema" ou "poblema" em vez de "problema")? E se tivermos a língua presa? Somos "burros" por não saber pronunciar ou simplesmente não conseguimos pronunciar tão facilmente?


2.1 Preconceito linguístico


Um dos argumentos para os que são contra a gramática normativa é justamente o preconceito linguístico.


O preconceito linguístico é um tipo de discriminação que resulta da realização de comparativos indevidos entre um modelo idealizado da língua falada com a maneira como as pessoas realmente se comunicam. Pode acontecer também quando se compara a forma de falar de diferentes regiões dentro de um mesmo país. Esse preconceito está ligado, também, à classe social ocupada pelos falantes. Ou seja, pessoas de poder aquisitivo mais elevado tendem a exercer preconceito contra o modo de falar daqueles mais humildes. Outra forma muito comum de preconceito linguístico ocorre entre países falantes da mesma língua, como Brasil e Portugal e Estados Unidos e Inglaterra. As variações das línguas são incompreendidas por algumas pessoas, o que leva a atitudes preconceituosas. (Stoodi)

Todos nós já vimos prints de uma postagem com algum erro:



É engraçado? Sim. Por quê? Pela lógica, Deus abençoa, não elimina, extermina. A graça está na similaridade dos verbos "iluminar" e "eliminar'.


A pessoa deve ser julgada por ter escrito errado? Não. Por quê? Essa postagem foi feita na finada rede social Orkut. Naquela época, era a maneira mais fácil de se comunicar com alguém pela internet. A pessoa não precisava passar por um teste de português para criar uma conta. Naquela época, cada pessoa se comunicava do seu jeito (os jovens com seus miguxês — escrevendo errado propositalmente — e emoticons; os mais velhos com textos sem pontuação e cheios de erros). Eles conseguiam se comunicar? Sim. Então a rede social cumpriu seu propósito.



2.2 Erros de tradução


E quando o erro não aparece numa postagem de rede social, e sim num estabelecimento?



O humor dessa imagem se deve à grafia "Barbie Kill", que se refere ao molho barbecue. Como "kill" é o correspondente em inglês do verbo "matar", parece que o molho é de uma Barbie assassina. Mas, não. Quem fez essa placa não sabia a grafia de barbecue, apenas a pronúncia, então escreveu da maneira que achou que fosse a correta.


Virou motivo de piada por conta da grafia? Sim. Essa pessoa deve ser "desprezada" por isso? É óbvio que não. "Barbecue" não é uma palavra da língua portuguesa, logo não tem como a pessoa saber a grafia se ela nunca teve contato familiaridade com essa palavra antes. O que poderia ter sido feito para evitar a gafe? Conferir a grafia (fazendo uma pesquisa na internet) ou perguntar para alguém se estava correta.


O uso incorreto da língua não deve ser motivo de desprezo. Em um outro texto, comentei sobre como a Literatura não deve ser excludente. Não é porque você já leu mais de 100 livros que você é um ser evoluído. Você lê bastante porque teve incentivo, motivação e tempo para isso, e que a leitura é algo agradável para você. E aquelas pessoas que vivem de trabalho informal, que "falam errado", não terminaram o ensino básico? Não tiveram a mesma oportunidade que nós, leitores assíduos, bacharéis etc. Provavelmente tiveram que abdicar da educação muito cedo para trabalhar. Não que o estudo não seja prioridade, mas faltou oportunidade para elas. Isso se deve à questão social mesmo. O acesso a um ensino de qualidade deveria ser para todos. Infelizmente, não é essa a realidade.


Meus pais, por exemplo, vieram a São Paulo para tentar uma nova vida, pois, no Nordeste, as coisas não eram (e ainda não são) tão fáceis. Eles abdicaram dos estudos para ajudar a família em casa e, para que eu tivesse mais oportunidades do que eles, investiram na minha educação. E eu os agradeço infinitamente por isso. O mérito é tão deles quanto meu. Mas eles são menos inteligentes por não saberem usar crase ou por errarem a conjugação de um verbo? Não. Isso deve à falta de oportunidade e ao nível de qualidade de ensino do nosso país, não à falta de interesse deles. Sempre que eles têm alguma dúvida, eles vêm e me perguntam. Explico com (quase) toda a paciência do mundo. É isso. Se você não sabe algo, não deve sentir vergonha em perguntar e deve estar disposto a sempre querer aprender.


3. Conclusão?


Falei sobre a dualidade de ensinar ou não a gramática, a importância de uma comunicação clara, os erros engraçados que vemos na internet e como devemos entender o porquê de a pessoa não falar corretamente, que isso não deve ser considerado "burrice".


O que eu acho extremamente importante é usarmos a língua ao nosso favor. Claro, é humanamente impossível sabermos (e lembrarmos de) todas as regras gramaticais, conjugações verbais, nomenclaturas das orações subordinadas, mas é importante sabermos a nossa própria língua. Se ignorarmos todas as regras gramaticais, tudo o que aprendemos até hoje porque "o importante é a comunicação", vai chegar um determinado momento em que não vamos nos entender.


A língua sempre muda e novas palavras aparecem, como, por exemplo, o famoso "tuitar", do verbo "tweet", do inglês. Devemos pensar, sim, no processo de comunicação (o que queremos dizer, para quem estamos dizendo e se a pessoa vai nos entender), mas isso se mescla com o nosso conhecimento linguístico. Por exemplo, se virmos um meme engraçado no Twitter e queremos mostrá-lo para alguém que não usa o Twitter ou sequer entende como funciona e/ou qual o propósito dele, vão dizer "tu o quê?"). Poderíamos simplesmente falar "olha que engraçado isso aqui que eu acabei de ver na internet", mostrar o meme e, dependendo do contexto humorístico ali, dar mais explicações sobre o porquê é engraçado. Viu só? O conteúdo foi compartilhado.


Tudo é uma questão de para que você está utilizando aquela linguagem, seja num contexto formal (trabalho acadêmico) ou informal (postagem numa rede social para os seus amigos). É bom saber as regras gramaticais e ter um bom conhecimento da língua portuguesa? Sim, claro. Quanto mais você se aprofundar na língua, mais poderá adaptá-la às suas necessidades de comunicação (por exemplo, eu preciso ter um amplo conhecimento em Inglês e Português porque a minha profissão de revisora e tradutora exige que o texto esteja o mais correto e claro possível, pois vai servir a algum propósito final). O importante é entendermos que nem todas as pessoas vão ter esse mesmo conhecimento (ou oportunidade de aprofundamento das questões linguísticas) e que cabe a nós, letristas, leitores, acadêmicos etc., compreensão, pois, caso a pessoa não se sinta ofendida por não saber determinada informação ou o porquê ela errou e então pedir esclarecimento ou explicação a você, use a língua ao seu favor: comunique-se com ela.


Então estudem crase, mas exercitem também a compreensão e a empatia.



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