• Daniela Pereira

Reflexões sobre tradução, tecnologia e o valor da profissão de tradutor



Nesta segunda-feira, dia 30 de setembro, comemora-se o Dia do Tradutor. A data é referente à morte de São Jerônimo. Ele traduziu a Bíblia do grego e do hebraico para o latim, tornando o livro sagrado mais acessível àqueles que não sabiam outras línguas.


Neste texto, quero falar um pouco sobre alguns aspectos importantes a respeito da (des)valorização dessa tarefa tão importante na disseminação de conhecimento, informação e cultura.


1. Valorização


Pense em quando você era criança. Consegue se lembrar daquele filme infantil estrangeiro que você viu na TV? Você o entendeu porque estava dublado, não? Esse filme passou pelo processo de tradução audiovisual da dublagem: o roteiro do filme foi traduzido e depois gravado por dubladores brasileiros. Aquele material audiovisual foi adequado para os não falantes de uma língua estrangeira para que você e outras crianças (e adultos também) pudessem apreciar aquele material. Foi resultado de uma tradução.


Para os leitores, eu vou utilizar o exemplo clássico de Harry Potter que mencionei em outro texto (item 3). As palavras estrangeiras foram traduzidas com muito cuidado para que o leitor pudesse entender aquela história sem que o texto ficasse repleto de estrangeirismos. Imagina só tentar ler Harry Potter no inglês britânico quando criança, sem entender nada? Demos graças à tradução de Lia Wyler.


Imagine que alguém esteja em processo de mudança para outro país. Todos os documentos precisam ser traduzidos para um processo seletivo de emprego ou intercâmbio. Nesse caso, a própria pessoa não pode traduzir, pois há muitos termos técnicos específicos e a comprovação de ser um documento oficial é imprescindível. Deve-se contratar um profissional que tenha experiência com esse tipo de vocabulário e adeque bem todos os documentos para que não haja problemas quando estiver em outro país.


Muitos estudantes brasileiros têm seus artigos publicados em revistas acadêmicas de outros países. Há a opção de submit (enviar) o artigo vertido do português para o inglês, para tornar aquela pesquisa mais acessível para pessoas de outros países.


A tradução está em tudo. No seu filme estrangeiro favorito, na sua saga estrangeira de livros, nos termos do seu livro didático, nos novos termos econômicos e tecnológicos... Para isso, precisa-se de profissionais especializados nas diferentes áreas e nas línguas pares de trabalho, que estejam sempre atentos aos aspectos linguísticos e terminológicos e à constante "atualização" de vocabulário.


2. Desvalorização


Há quem ainda diga: "Para que contratar um tradutor? Posso jogar meu texto inteiro num tradutor automático na internet e só fazer algumas alterações." Pois é... Vamos lá.


2. 1. Fluência e acurácia


Todos nós já ficamos em dúvida com um termo em outra língua. Quem nunca ouviu uma palavra em francês, por exemplo, em uma música em inglês e quis saber o que significava? Rapidamente, joga-se a frase no tradutor automático e ele dá aquela tradução, muitas vezes até "quebrada".


Tudo bem... Os tradutores automáticos deram uma melhorada, mas há um dedo humano ali confirmando a tradução daqueles termos (ou seja, se você confirma que aquele termo está corretamente traduzido, está trabalhando de graça! Risos).


Em 2015, quando eu estava no quarto semestre da faculdade, teve uma proposta de trabalho que consistia em escolher um texto da área jurídica e outro da área jornalística. Nós tínhamos que escolher dois tradutores on-line/automáticos (escolhi Google Tradutor e Bing), colar os textos e comentar as inconsistências de suas traduções. Abaixo, segue um trecho desse meu trabalho, do segundo texto escolhido (o jornalístico).


A primeira coluna contém o texto inicial, em inglês; a segunda, a tradução do Google Tradutor; a terceira, a tradução do Bing; e a quarta, os meus comentários.



Veja que, apesar de o texto ter certas consistências, ainda há termos que passam despercebidos. Ou seja, o tradutor automático funciona, mas não é 100% confiável. Assim, é melhor confiar no trabalho de um tradutor em vez de confiar no tradutor automático, que se baseia em dados e algoritmos, não em adequação e fluência.


2.2. Segurança


Já ouviram falar de tradução jurídica e juramentada? Ambas tratam da tradução de documentos jurídicos (contratos, dissoluções, certificados, etc.). A diferença é que a tradução juramentada só pode ser feita por um tradutor juramentado (concursado), quando se tratar de documentos cuja autenticidade exija comprovação (esse tradutor possui um livro com todas as traduções jurídicas traduzidas e atestadas como "oficiais"). Agora, se for apenas para um acordo que ainda esteja em andamento e precise ser reescrito, editado e retraduzido até, finalmente, ser fechado, a tradução jurídica pode ser utilizada, sem muita burocracia.


Imagine que você trabalha em uma multinacional e a sua empresa vai comprar uma outra. O contrato ainda não foi fechado. É algo absolutamente sigiloso. Ninguém pode saber pois ainda há várias etapas a serem finalizadas. O contrato entre essas duas empresas seria colado em um tradutor automático? Não, pois poderia ocorrer o risco de vazamento, já que as informações estão sendo compartilhadas na rede mundial de computadores.


Jornalistas assinam um embargo das distribuidoras quando assistem a um filme semanas antes da estreia, para já terem suas críticas feitas quando estrear para o público geral. Esse embargo tenta impedir qualquer vazamento de informação sobre o filme antes da hora, como qual personagem aparece ou morre, o que acontece no final, etc.


Quando um tradutor fica encarregado de traduzir um documento sigiloso, pedem que assine um termo confidencial. Se qualquer informação for liberada antes do tempo, pode ser que esse tradutor seja culpado. Melhor não arriscar.


Por isso é importante entendermos que não é para demonizar os tradutores automáticos. Eles servem para consultas breves, rápidas. Dependendo da situação, serve até para conferir a pronúncia de uma palavra de uma língua específica (ainda assim, eu recomendaria a utilização de um dicionário on-line da língua que fornecesse um botão para a pronúncia poder ser escutada e/ou consultar a transcrição fonética, como o Macmillan). A questão é que na contratação do tradutor, espera-se a garantia de um bom trabalho, com todos os recursos linguísticos envolvidos e, caso existam questões sigilosas, também se espera a compreensão e confidencialidade do profissional.


2.3. Tecnologia


Há quem diga também que CAT Tools deixam o tradutor mais "preguiçoso" ou que "é só jogar o texto lá que ele sai pronto". Não!


As CAT Tools são ferramentas que auxiliam a formatação e o rendimento de uma tradução. Por exemplo, se eu recebo um texto em formato Word para ser traduzido, já completamente formatado, com parágrafos divididos, seções e hiperlinks, a CAT Tool escolhida (no meu caso, MemoQ), mantém todas essas especificidades e eu só edito/traduzo em cima, pois isso economiza muito tempo, que não irá ser gasto em reformatar tudo em outro arquivo. Há quem ache que CAT Tools vêm com glossários, dicionários e termos já traduzidos embutidos. Nada disso. O próprio tradutor "alimenta" a ferramenta. Quanto mais você usar, quanto mais você traduzir e criar as chamadas "memórias de tradução" (como se fossem glossários com termos que você traduziu, divididos por áreas de especificidades), mais a ferramenta vai auxiliar o seu rendimento. Exige muita paciência e aprendizado, pois há inúmeras funções a serem aprendidas e utilizadas. Além disso, quando você carrega um arquivo, é mostrada a quantidade de palavras que o arquivo possui, além de uma barra verde, indicando a porcentagem de progresso (se, de 1.000 palavras, você se dispôs a traduzir metade em um dia e metade no outro, a barra verde fica na metade, indicando que ainda falta a outra metade da tradução).


Então é importante perceber que as ferramentas on-line estão aí para serem usadas, mas que elas não vão tomar nosso lugar tão cedo.


3. E então? Como dar o devido valor à profissão?


Em primeiro lugar, como eu disse na postagem anterior: estude muito, estude sempre. Faça o seu título de tradutor técnico/médico/jurídico/literário/financeiro/audiovisual/etc. valer a pena. Não é uma profissão fácil, pois requer, além de estudo e conhecimento, muito foco, muita paciência e muito jogo de cintura para lidar com clientes, solucionar problemas, cumprir prazos quase impossíveis...


Em segundo lugar, não diminua o seu valor de trabalho. Quase que semanalmente, aparecem dúvidas de tradutores iniciantes nos grupos de tradução no Facebook, perguntando quanto se deve cobrar por trabalho x de y palavras. Depende. Alguns dizem para "cobrar o valor baseado no nível de dificuldade e no tempo que você vai gastar". Outros dizem para consultar a tabela do SINTRA — que serve como base, mas não é seguida à risca, principalmente por iniciantes, pois cada tradutor sabe a sua necessidade, e cobrar um preço alto requer muita experiência e muita lábia. Mas tente equilibrar o seu nível de experiência sobre aquele assunto e o tempo. Esteja aberto a negociação, mas lembre-se que há um limite entre negociação e diminuição absurda de preço, OK? E enfatizando: tradução não é bico. É um trabalho sério e deve ser algo bem-feito.


Seus colegas de profissão não são seus concorrentes. Vamos repetir? Seus colegas de profissão não são seus concorrentes. Quiçá, são as únicas pessoas com quem você pode partilhar experiências e tirar dúvidas, já que alguns clientes só querem ter o texto traduzido, maravilhoso e impassível de erros, e não saber sobre o seu processo tradutório, nem mesmo oferecer apoio para você tirar suas dúvidas.


Outra dica é sempre ir em palestras, congressos e eventos. Eu simplesmente adoro comparecer, pois é uma chance de sair um pouco do computador, de evitar apenas ler mais e mais comentários do que se deve ou não fazer numa tradução, de discussões desnecessárias... Geralmente, em eventos, há um tema geral, debatido pelos participantes e espectadores. Para mim, é a melhor maneira de partilhar experiências e discutir ferramentas ou novas maneiras de se pensar sobre Tradução.


No último sábado, dia 28 de setembro, em comemoração ao Dia do Tradutor, aconteceu o Burburinho Literário. No primeiro bate-papo (que foi um barcamp sobre localização de games), a tradutora Val Ivonica deu algumas dicas sobre como se tornar um tradutor (de jogos). Dentre os exemplos que ela elencou, veio o mais importante: saber seus próprios limites.


Muitas vezes (principalmente nós, iniciantes), ficamos muito empolgados para receber trabalho. Pode ser que tenha mais de um projeto na mesma época, mas nos deixamos levar por essa empolgação e não prestamos muita atenção em algo superimportante: o nosso corpo. Só porque conseguimos traduzir tantas palavras por dia, não significa que o nosso rendimento será o mesmo todos os dias. Pensamos "ah, não. Dá pra fazer esse trabalho em dois dias, sim", quando, na realidade, deve ser um que exija, no mínimo, cinco dias. É importante estabelecermos limites entre o tempo de trabalho e o de descanso. Só porque achamos que conseguiremos fazer, não significa que devemos sacrificar dias inteiros para ficar em frente ao computador e não viver. Lembrando: quanto mais urgente o trabalho, maior o preço. Negocie e explique o porquê você precisa de mais tempo. Se achar que não vai conseguir cumprir o prazo ou que vai dar muito trabalho para você, recuse. O dinheiro vai fazer falta? Sim, mas evita dor de cabeça desnecessária. Além disso, outra dica muito importante é ver o arquivo a ser traduzido. Pode ser que o cliente diga que "é pouquinha coisa" ou "não é nada de mais", mas o texto pode estar sem pé nem cabeça e vai te dar muito trabalho na hora de traduzir. Resumindo: saiba impor limites, dizer "não" e consultar o arquivo com o qual você vai trabalhar.


Outra dica importante é registrar o tempo de processo de tradução. Se você gosta da área médica, pegue um texto e cronometre quando você começou. Faça a tradução, a pesquisa dos termos, a revisão final e pare o cronômetro. Quanto tempo você demorou para fazer essa tradução? Quantas palavras conseguiu traduzir? Foi um texto curto, de fácil compreensão, ou um texto difícil, que exigiu tempo para pesquisa dos termos equivalentes? É importante sabermos o nossos próprios limites para que não prejudiquemos a qualidade do nosso trabalho e não sejamos cobrados por prazos impossíveis. Também é importante praticarmos, mesmo que não seja um texto de um trabalho, para sabermos em qual área temos mais interesse a qual exige muito estudo. Quanto mais você praticar, quanto mais conhecimento no assunto, maior será seu rendimento de tradução.


É importante também comparecer a eventos de seu interesse. Se você é tradutor da área audiovisual, por exemplo, compareça a mostras de filmes independentes, a eventos da área. Se você é tradutor da área médica, vá a congressos da sua área de especificidade e participe de grupos de tradutores médicos. Se você é tradutor da área literária, vá a lançamentos de livros, a eventos literários. É importante saber o que está acontecendo no seu entorno e se fazer presente nesses eventos. Seja interessado.


Além disso, acho muito importante os tradutores estarem dispostos a explicar como se dá o processo de tradução aos leigos. Para que as pessoas parem de achar que "é algo fácil", "que qualquer um pode fazer", é necessário explicar as especificidades. Claro, não precisamos ser uma enciclopédia ambulante, mas é importante mostrar o que fazemos e quão bem fazemos nosso trabalho. Isso também é valorização. A pessoa vai compreender e dizer: "Nossa, sério? Não sabia que envolvia TUDO isso". Pois é!


Ah... Quantas vezes eu já ouvi: "ah, tradução, é...? Você não quis trabalhar com algo mais interessante, não?" ou "ainda se precisa de tradutor? O Google Tradutor já dá conta, né?". Só rindo para não chorar. As pessoas devem achar que os filmes dublados surgem lá no botãozinho, que é só apertar "SAP" que a dublagem desaparece, que não é um trabalho extenso e árduo, assim como a legendagem, a audiodescrição, a versão de textos acadêmicos, a normalização de termos técnicos nas línguas pares... Enfim, cabe a nós nos apoderarmos desse espaço na profissão e demonstrarmos que sabemos o que estamos fazendo e que, a cada dia mais, tenhamos mais qualificação e interesse na nossa área de especificidade (porque há quem trabalhava com área técnica, de engenharia, e depois vai para a área de finanças — e tudo bem). Novamente: estude muito, estude sempre.


Finalizo este texto parabenizando todos os tradutores e intérpretes, tanto os iniciantes como os já consolidados na área, e aos que estão pesquisando sobre o processo de tradução ("curiosos") e decidindo iniciar sua formação. Essa profissão é digna de extremo valor, pois levamos informação, cultura, conhecimento e diversão para aqueles que não entendem uma língua estrangeira. Então, Feliz Dia Internacional da Tradução!



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